Parque Ibirapuera: o que a nota 9,1 não mede
Pesquisas de satisfação capturam percepções reais, mas não ouvem quem se afastou por lotação, ruído ou pela miríade de eventos. Multiplicaram-se feiras, shows, ativações de marcas e experiências gastronômicas; parte dessa agenda é bem-vinda, desde que não se torne o eixo do espaço público
Por William Callegaro
Conselheiro titular do parque Ibirapuera, em São Paulo, é representante da Associação Viva Moema e idealizador do Movimento Juntos Pelo Parque.
No final de 2025, quando o Conselho Gestor do Parque Ibirapuera, encerrava seu ciclo de reuniões ordinárias, foi divulgada pesquisa Datafolha que aponta alta aprovação da concessão, com nota
média de 9,1 para a gestão do mais simbólico dos parques paulistanos.
O resultado chama a atenção porque trata de pontos básicos do parque Ibirapuera, como conservação, infraestrutura e sensação de segurança, que, claro, devem melhorar continuamente.
Mas uma avaliação positiva não deveria encerrar o debate, mas sim qualificá-lo. A questão é: que “melhora” está sendo medida quando se fala de um parque que foi concedido à iniciativa privada? O cidadão está mais satisfeito porque encontra um lugar limpo, bem cuidado e seguro ou porque aumentou a oferta de eventos, serviços e experiências de consumo?
Nos últimos anos, multiplicaram-se no Ibirapuera feiras, shows, ativações de marcas e experiências gastronômicas. Parte dessa agenda pode ser bem-vinda, desde que não se torne o eixo do espaço público. A questão é de prioridade: São Paulo já tem muitos espaços vocacionados para programação comercial; filas, lançamentos e “experiências” existem em quase qualquer esquina.
Um parque metropolitano é um raro refúgio ambiental: lugar de caminhar, respirar, observar, descansar e conviver sem a obrigação de comprar algo. Quando a cidade normaliza a ideia de que sempre deve haver “algo acontecendo”, paga-se um preço.
Pesquisas de satisfação capturam percepções reais, mas não ouvem quem se afastou do parque, seja por lotação, ruído ou pela agenda crescente de eventos.
O debate público recente sobre a marquise a transformou em símbolo da disputa sobre o uso do Ibirapuera. Espaço democrático, abrigo do sol e da chuva, historicamente ocupado por skatistas e patinadores, está entre os pontos ainda não capturados pela lógica de exploração econômica.
Como conselheiro, acompanhei a reação à minuta sobre o uso da marquise. Após a repercussão negativa, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente, da Prefeitura de São Paulo, informou que o texto
seria substituído, o que se confirmou com a apresentação de uma nova versão ao conselho. Esse espaço é parte da cultura esportiva do parque, usado há décadas por skatistas e patinadores; restringilo para abrir espaço a ativações seria inverter prioridades.
E vale perguntar: por que há, em alguns casos, flexibilidade para eventos além do horário regular, mas não para resguardar o uso cotidiano e esportivo? Como conciliar isso com regras de vizinhança e ruído que, fora dali, costumam ser mais restritivas? Se o parque vira exceção, deixa de ser referência de bem público.
A concessionária visa lucro; é do jogo. O que não pode é o lucro virar projeto de parque. Por isso, são indispensáveis a transparência e o controle social. Esse controle fica ainda mais necessário quando há inquéritos civis do Ministério Público em andamento envolvendo a área verde. Evento pode existir, mas não pode ditar a lógica do Ibirapuera.
No fim, pesquisas ajudam, mas são fotografias parciais e dependem das perguntas e dos recortes. A avaliação só faz sentido se incluir verde, silêncio, acesso democrático e impactos no entorno, além de limites claros para eventos. Parque não é vitrine; é bem público. O Ibirapuera não cabe num número — e não pode, aos poucos, perder a própria ideia de parque.

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